
Não é por falta de leis, de informação ou de discursos bem-intencionados que o convívio social segue adoecendo. O que falta, cada vez mais evidente, é disposição real para enfrentar três atitudes que se alimentam mutuamente e moldam nosso cotidiano: intolerância, negligência e orgulho. Juntas, elas formam um tripé que sustenta desde conflitos familiares até crises políticas e tragédias coletivas.
A intolerância se revela na incapacidade de conviver com o diferente. Diferente na cor da pele, na fé, na orientação sexual, na opinião política ou até no simples jeito de viver. Não se trata apenas dos casos extremos, que rendem manchetes e processos judiciais. Ela está presente nas piadas “inofensivas” que desumanizam, nas agressões verbais das redes sociais, no silêncio cúmplice de quem vê uma injustiça e se omite. A intolerância começa quando alguém decide que o outro vale menos e termina, muitas vezes, em violência.
A negligência é a irmã silenciosa da intolerância. É o “não é problema meu”, o “sempre foi assim”, o “não vai fazer diferença”. Ela aparece quando gestores ignoram alertas sobre desastres anunciados, quando autoridades deixam de investir em educação e saúde, quando empresas fecham os olhos para condições indignas de trabalho, quando cidadãos preferem virar o rosto diante da miséria na porta de casa. A negligência não é apenas ausência de ação; é uma escolha. Escolha que mata lentamente, por omissão.
O orgulho, por sua vez, funciona como cola entre as duas. É ele que impede o pedido de desculpas, o reconhecimento do erro, a revisão de atitudes. É mais fácil reafirmar opiniões, mesmo quando os fatos as desmentem, do que admitir: “eu estava errado”. O orgulho prefere perder amigos a perder uma discussão, prefere manter relações quebradas a dar o primeiro passo para o diálogo. Em escala coletiva, alimenta polarizações, bloqueia acordos mínimos e transforma adversários em inimigos irreconciliáveis.
Quando a intolerância desumaniza, a negligência naturaliza e o orgulho cristaliza, abre-se espaço para um tipo de barbárie cotidiana: pequena, difusa, mas constante. Ela se expressa no racismo “velado” que todos veem e poucos enfrentam; na violência de gênero tratada como problema privado; na pobreza transformada em paisagem. E, sobretudo, na recusa em aprender com o sofrimento alheio.
Não é realista esperar uma sociedade sem conflitos ou divergências. Eles fazem parte da vida democrática. O que se pode – e se deve – esperar é uma sociedade capaz de discordar sem destruir, de divergir sem desumanizar, de reconhecer a própria parcela de responsabilidade pelo que dá errado. Isso exige mais do que leis punitivas; exige cultura de empatia, de escuta e de autocrítica.
Romper esse tripé começa em níveis bem menos abstratos do que parece. Começa em admitir o preconceito internalizado, em não rir da piada discriminatória, em questionar a própria indiferença diante da injustiça. Começa quando um gestor assume que falhou, quando uma instituição revisa práticas excludentes, quando alguém decide ouvir de verdade quem pensa diferente. Parece pouco, mas é justamente nesses pequenos gestos que a intolerância perde força, a negligência perde desculpa e o orgulho perde terreno.
Enquanto insistirmos em enxergar intolerância, negligência e orgulho como problemas dos outros, dos políticos, das “elites”, das “massas”, de “lado A” ou “lado B”, continuaremos alimentando o mesmo círculo vicioso. A pergunta incômoda, porém necessária, é outra: até que ponto cada um de nós, em nossas escolhas diárias, ajuda a sustentar esse tripé? A resposta, se for honesta, talvez seja o primeiro passo para desmontá-lo.
por Regina Papini Steiner






