Boné Anti-Trump:

Quando um acessório se torna arma Política.

 Por Regina Papini

Como jornalista, observo com atenção o papel que símbolos aparentemente simples – como um boné – podem desempenhar nas disputas políticas contemporâneas. O “boné anti-Trump”, usado em protestos e manifestações de repúdio à figura do presidente dos EUA, transcende sua materialidade para se tornar um estandarte político de alcance global. Seu impacto é sentido também no Brasil, especialmente quando a cobertura midiática se debruça sobre seu significado e seus desdobramentos.

Na análise feita pela Carta Capital, o boné é retratado como um símbolo progressista, associado a uma crítica direta ao avanço do populismo autoritário. A revista adota uma linha editorial que o posiciona como uma peça de resistência cultural e política – quase um artefato de oposição simbólica ao conservadorismo internacional. A publicação enfatiza os valores de inclusão, diversidade e justiça social, ressaltando como o boné funciona como um contraponto visual ao “Make America Great Again” (MAGA), ícone do trumpismo. É um posicionamento alinhado à linha editorial combativa da Carta, que há tempos se coloca como uma trincheira contra a ascensão conservadora.

Já o Núcleo Jornalismo, que veicula conteúdos principalmente via Telegram, oferece uma perspectiva mais analítica e menos engajada emocionalmente. A análise foca no fenômeno da viralização de símbolos políticos e no papel das redes sociais na consolidação de “marcas ideológicas”. O boné anti-Trump é estudado quase como um objeto de estudo da cultura digital, destacando como esses elementos visuais funcionam como dispositivos de identidade política. O Núcleo não endossa nem critica diretamente o uso do boné, mas propõe reflexões importantes sobre sua eficácia na mobilização social e os limites entre ativismo e performatividade. Essa neutralidade analítica contribui para uma compreensão mais complexa do fenômeno, mas aponta atenção com relação a Ditadura.

Em contraponto, a plataforma de YouTube do Terra Brasil adota um tom abertamente crítico ao boné e ao que ele representa. Em vídeos opinativos com forte apelo emocional e retórica combativa, o boné anti-Trump é descrito como um símbolo da “lacração”, um instrumento de provocação política que mais divide do que une. O Presidente do Brasil posou com o acessório em seus perfis oficiais , e a frase no Boné era: “O Brasil é dos Brasileiros”. Os vídeos ironizam o uso do acessório, associando-o a uma suposta elite intelectual desconectada do “cidadão comum”. A linha editorial do Terra Brasil flerta com o discurso conservador e reforça uma narrativa de reação à cultura progressista, o que reduz a possibilidade de debate plural e construtivo sobre o tema.

Dessa forma, a leitura crítica dessas três fontes revela não apenas diferentes formas de ver o boné anti-Trump, mas também diferentes visões sobre a própria função do jornalismo na sociedade. Enquanto Carta Capital reforça seu papel militante, o Núcleo aposta na análise tecnopolítica e o Terra Brasil, por sua vez, recorre à retórica da polarização e da guerra cultural.

Acredito que símbolos como o boné anti-Trump têm, sim, valor na luta contra discursos autoritários. Mas também é essencial que a mídia não se limite a explorar essas imagens de maneira simplista ou sensacionalista. Vejo valor em símbolos que desafiam o “status quo” e expõem as feridas da democracia. Mas também  reconheço o risco de transformarmos cada peça de roupa em um slogan, esvaziando o discurso em nome da estética. A resistência verdadeira vai além do que se veste: ela está no conteúdo, na ação concreta e no compromisso com a verdade.

Nosso desafio é ir além da superfície, revelando os mecanismos que transformam objetos em ícones, e ícones em armas no campo de batalha político. Mais do que nunca, o jornalismo precisa ser a ferramenta que ilumina, e não apenas amplifica, o ruído simbólico da nossa era.

O boné anti-Trump pode ser um gesto. Mas a pergunta que fica é: o que estamos fazendo, de fato, para que ele não seja apenas isso?

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