Por Regina Papini
A ideia de “cultura nacional” tem sido central tanto em debates acadêmicos quanto na vida cotidiana, refletindo uma tentativa de consolidar um sentimento de pertencimento coletivo e coesão social. Porém, ao mesmo tempo, esse conceito desperta questionamentos sobre os limites da construção identitária e sua relação com as práticas excludentes e com a preservação de uma visão homogênea da sociedade.
Em um contexto global marcado pela crescente mobilidade e interconectividade, o que deveria ser um ponto de orgulho ; a cultura nacional; também pode se tornar uma ferramenta de isolamento e de reafirmação de narrativas hegemônicas. As culturas nacionais, muitas vezes moldadas por uma visão essencialista de um “povo originário”, não raramente minimizam a complexidade das realidades internas. No Brasil, por exemplo, a construção de uma “identidade nacional” frequentemente deixa de fora a diversidade dos grupos indígenas, afrodescendentes, imigrantes e mesmo as culturas regionais que coexistem e influenciam o tecido social de forma significativa.
Essa problemática não é exclusiva do Brasil. Em várias partes do mundo, as narrativas nacionais podem se tornar dogmas, nos quais minorias são frequentemente apagadas ou marginalizadas. É preciso reconhecer que, em países como o Japão ou a França, as noções de identidade nacional muitas vezes se alimentam de um ideal de pureza cultural, que não apenas desconsidera as influências externas, mas também deslegitima as experiências internas de transformação cultural e multiculturalismo.
O desafio acadêmico reside, então, em desconstruir a ideia de uma cultura nacional como algo estático, imutável, e homogêneo. Para tanto, deve-se promover uma visão mais inclusiva, capaz de reconhecer a multiplicidade de experiências, influências e tensões que caracterizam o cotidiano das sociedades contemporâneas. Em lugar de uma unidade monolítica, as culturas nacionais precisam ser entendidas como espaços dinâmicos e plurais, permeados por diálogos constantes entre diferentes vozes e contextos históricos.
O conceito de cultura nacional, portanto, não deve ser ignorado, mas também não deve ser absolutizado. Em um mundo que cada vez mais se distancia de fronteiras físicas e que convive com a ideia de cidadanias múltiplas, a construção de identidades coletivas precisa estar atenta a novos parâmetros de inclusão. A cultura não é apenas o que une, mas também o que pode dividir. E, por isso, a reflexão acadêmica sobre as culturas nacionais deve ser orientada para uma abordagem crítica, que contemple as diversas narrativas e as complexidades que elas envolvem.
A verdadeira identidade cultural de uma nação não é encontrada apenas no folclore, na música ou nos costumes superficiais, mas nas múltiplas interações que ocorrem entre as várias camadas da sociedade. O futuro das culturas nacionais dependerá de nossa capacidade de acolher a pluralidade e de compreender que a história, longe de ser um relato homogêneo, é marcada por contínuas reconfigurações e confrontos de memória. Assim, as culturas nacionais podem, sim, ser o ponto de partida para o diálogo global, desde que se distanciem de qualquer tentação de exclusão ou imposição única de identidade.
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