Como a pluralidade de vozes transforma a pesquisa científica no Brasil.
Por Regina Papini Steiner
Por muito tempo, a ciência foi apresentada como neutra, objetiva e universal. Mas basta um olhar atento aos corredores das universidades e centros de pesquisa para perceber: ainda hoje, a produção científica no Brasil carrega marcas de exclusão. Mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e oriundas de periferias, são populações historicamente negligenciadas, nos espaços de decisão e liderança acadêmica. Isso, no entanto, vem mudando e para melhor.
A diversidade, cada vez mais, tem sido reconhecida como um recurso estratégico para o avanço científico. Estudos internacionais mostram que equipes compostas por pessoas com origens, trajetórias e visões distintas são mais inovadoras, têm maior capacidade de resolver problemas complexos e produzem conhecimento com maior impacto social. No Brasil, diversas iniciativas vêm transformando essa teoria em prática.
Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o coletivo Negras na Ciência reúne pesquisadoras negras de diferentes áreas para desenvolver estudos sobre saúde, educação e políticas públicas. “Somos mais do que estatística de sub-representação. Produzimos ciência com a marca da resistência e da coletividade”, afirma a professora Aline Santos, uma das líderes do grupo.
Já na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), políticas de cotas em programas de pós-graduação começaram a alterar o perfil dos pesquisadores. Segundo dados da própria instituição, o número de estudantes negros na pós cresceu 180% entre 2019 e 2024. E isso se reflete nos temas das pesquisas: aumento nos estudos sobre desigualdades, saúde da população negra, saberes tradicionais e impactos ambientais em territórios periféricos.
A pluralidade também se manifesta nas tecnologias. Na PUC-SP, o grupo de Bioinformática Diversa, coordenado por Rafael Gomes; homem trans e pesquisador; desenvolve algoritmos voltados ao mapeamento genético de populações subestudadas. “Quando só um perfil domina a ciência, muita coisa fica invisível. A diversidade nos permite ver onde antes havia cegueira institucional”, afirma Rafael.
Não se trata apenas de justiça social. A inclusão impacta diretamente a qualidade do conhecimento produzido. “Quando incorporamos saberes indígenas, por exemplo, na pesquisa sobre biodiversidade, ganhamos em precisão, sustentabilidade e inovação”, destaca a antropóloga Luana Yawanawa, que atua como ponte entre pesquisadores e comunidades da Amazônia.
Ainda há muitos desafios. Racismo, machismo e LGBTfobia continuam presentes no meio acadêmico. Muitos talentos desistem antes de chegar ao doutorado, e as estruturas institucionais ainda precisam mudar. Mas o caminho está sendo trilhado.
“Mentes diversas produzem uma ciência mais forte, mais criativa e mais conectada com os desafios reais da sociedade brasileira”, conclui Aline Santos. O futuro da ciência passa, necessariamente, pela inclusão não apenas como valor moral, mas como método científico.
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