Afeganistão em Ruínas: O Custo Humano de uma Guerra que Não Acabou

Crise humanitária se agrava sob o regime do Talibã enquanto milhões enfrentam fome, insegurança e violações de direitos básicos

Foto por Ahmed akacha em Pexels.com

Por Regina Papini Steiner
26 de maio de 2025

CABUL — Quase três anos após a retirada das tropas norte-americanas e a retomada do poder pelo Talibã, o Afeganistão continua mergulhado em uma das maiores crises humanitárias do mundo. Em um cenário de escassez de alimentos, colapso econômico e repressão aos direitos humanos, especialmente de mulheres e crianças, a população civil paga o preço mais alto por uma guerra que, embora silenciada nas manchetes, está longe de terminar.

De acordo com dados recentes da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 28 milhões de afegãos — cerca de dois terços da população — precisam urgentemente de assistência humanitária em 2025. O colapso do sistema bancário, o desemprego generalizado e as sanções internacionais agravaram a fome e o sofrimento em comunidades já devastadas por décadas de conflitos.

O retorno do Talibã ao poder, em agosto de 2021, trouxe de volta restrições severas à liberdade, especialmente para as mulheres. Desde então, meninas foram proibidas de frequentar escolas acima do ensino fundamental em muitas regiões, e mulheres foram excluídas do mercado de trabalho, da mídia e até de parques públicos. Organizações de direitos humanos denunciam uma repressão sistemática, que inclui detenções arbitrárias e punições públicas.

“É como se tivéssemos voltado no tempo. Perdemos tudo: a liberdade, o trabalho, o futuro das nossas filhas”, relata Amina*, ex-professora em Herat, que agora vive escondida após protestar por direitos básicos.

Apesar da atuação de diversas ONGs, como Médicos Sem Fronteiras, UNICEF, Save the Children e o Programa Mundial de Alimentos (WFP), a distribuição de ajuda enfrenta obstáculos diários. Restrições impostas pelo Talibã, falta de segurança e bloqueios logísticos dificultam o acesso às áreas mais necessitadas.

“Estamos trabalhando em condições extremamente limitadas. Muitos profissionais foram forçados a sair do país ou a operar em sigilo”, explica uma coordenadora da ONG Norwegian Refugee Council, sob condição de anonimato.

Além disso, a comunidade internacional enfrenta o dilema ético de como oferecer ajuda sem legitimar um regime acusado de violar sistematicamente os direitos humanos.

Enquanto o mundo se volta para outros conflitos, como a guerra na Ucrânia ou os embates no Oriente Médio, o Afeganistão desaparece gradualmente da atenção global. A falta de cobertura contínua contribui para o esquecimento de uma população que ainda vive sob o som dos drones, a ameaça de minas terrestres e a incerteza do amanhã.

O Afeganistão enfrenta agora não apenas os escombros físicos da guerra, mas uma reconstrução social profundamente desafiadora. Sem ações concretas da comunidade internacional e sem garantias mínimas de direitos, o povo afegão continuará sofrendo invisível aos olhos do mundo.

*Nome alterado por motivos de segurança.

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