Casa da Favela na FLIP 2025: a literatura que rompe muros

A presença da Casa da Favela pela terceira vez na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) é mais do que uma ação cultural, é um ato político. Em um país marcado por desigualdades históricas, levar as vozes das periferias ao centro de um dos eventos literários mais prestigiados do Brasil significa romper com a lógica elitista que por muito tempo dominou os espaços da literatura e do pensamento intelectual.

E, neste ano, a participação de Conceição Evaristo no espaço reforça a potência dessa ruptura. Autora de uma obra marcada pela “escrevivência”, Evaristo tem sido uma das maiores representantes da literatura negra e periférica brasileira, com narrativas que partem da vivência pessoal para denunciar, emocionar e mobilizar. Sua presença na Casa da Favela não é apenas simbólica — é um manifesto vivo da urgência em democratizar o acesso à cultura e dar protagonismo às vozes historicamente silenciadas.

A FLIP, por muito tempo restrita a nomes consagrados do mercado editorial, vem se abrindo aos poucos para a pluralidade brasileira. Mas não se trata apenas de abrir espaço. É preciso garantir centralidade. A Casa da Favela não quer ser apêndice da festa — quer ser núcleo de uma nova narrativa, onde favelas não são retratadas apenas como lugares de ausência, mas como potências criativas, intelectuais e literárias.

A edição de 2025 acontece num momento crucial, em que o país ainda luta para redefinir sua identidade cultural diante das marcas do autoritarismo recente, da intolerância e da elitização da arte. A favela, quando ocupa a FLIP, leva consigo as marcas do território, da coletividade, da resistência. E quando Conceição Evaristo fala, é como se falasse um coral de mulheres negras, mães, filhas, vizinhas — todas aquelas que a literatura tradicional muitas vezes ignorou.

A Casa da Favela é uma espécie de quilombo literário em pleno século XXI. É ali onde a oralidade se encontra com o livro, onde o batuque vira poesia, onde a sobrevivência se transforma em estética. E isso é literatura da mais alta qualidade.

Mais do que um espaço, a Casa da Favela é um espelho que reflete o Brasil que queremos: múltiplo, justo, e profundamente humano.

por Regina Papini Steiner

30 de maio de 2025

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