
Cassandra Rios não foi apenas uma escritora foi uma afronta viva à hipocrisia social de seu tempo. Nascida Odete Rios em 1932, ela se consagrou como uma das vozes mais ousadas e censuradas da literatura brasileira. Em um país marcado por uma ditadura militar moralista e uma elite literária elitista, ela ousou escrever sobre lesbianismo, desejo feminino, prostituição e outras realidades marginalizadas e pagou o preço por isso.
Durante o regime militar, Cassandra teve dezenas de seus livros censurados. Tornou-se a autora mais proibida do Brasil, mas também uma das mais vendidas, com tiragens que ultrapassaram a casa dos milhões. O paradoxo é claro: enquanto o Estado e a crítica tentavam silenciá-la, o povo a lia escondido, mas ávido. Suas personagens não eram musas idealizadas ou senhoras recatadas; eram mulheres reais, com desejos reais, em tramas que transbordavam erotismo e resistência.
A crítica literária, no entanto, raramente a levou a sério. A rotulavam como “literatura de banca”, ignorando o valor histórico e político de seus textos. E mesmo hoje, em tempos de resgate de vozes apagadas, Cassandra ainda encontra resistência para ocupar o espaço que lhe é de direito na história da literatura brasileira.
Mais do que escandalosa, Cassandra Rios foi pioneira. Escancarou o armário antes que fosse seguro fazê-lo, e escreveu sobre prazer feminino em uma época em que isso era crime moral — e, por vezes, literal. É preciso rever nosso cânone e reconhecer que, por trás das capas sensacionalistas, havia uma escritora que ousou contar as histórias que ninguém mais contava. E que, por isso mesmo, permanece necessária.
Neste mês de junho, ocorre o maior movimento LGBTQIA+ do mundo, a Parada em São Paulo e dedico um pequeno ensaio sobre essa grande escritora, Cassandra Rios.
Por Regina Papini Steiner
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