
Recentemente, em um grupo da faculdade de jornalismo, a palavra “todes” virou motivo de falta de conhecimento e respeito. Uma simples tentativa de acolher todas as existências gerou dissidência, discursos inflamados, ironias e até ódio. A palavra foi chamada de exagero, de militância desnecessária, de “erro de português”.
E mais uma vez, não foi sobre gramática. Foi sobre gente.
A língua não é neutra. Nunca foi. A forma como nomeamos o mundo molda também a forma como o habitamos. O debate sobre linguagem é também um debate sobre dignidade e sobrevivência.
E quando a linguagem exclui, fere. Quando abraça, cura.
O uso de expressões como “todes”, “amigues”, “bem-vindes” não é uma imposição. É um convite. Um gesto simbólico de escuta. Uma tentativa de construir um espaço onde ninguém precise se sentir um erro por ser quem é.
Sabemos que a norma culta da língua portuguesa ainda não reconhece oficialmente esse uso. Mas a linguagem viva não nasce nos dicionários, já foi inclusive motivo de estudo na faculdade. Ela pulsa na rua, nos afetos, na luta por reconhecimento.
Em um país onde pessoas LGBTQIA+ têm expectativa de vida média inferior a 35 anos, onde travestis e pessoas não binárias ainda enfrentam violências simbólicas e físicas todos os dias, brigar por uma vogal é pouco demais. Mas também é muito.
A resistência ao uso dessas formas revela mais do que preferência linguística. Revela disputas ideológicas, medo da mudança e, muitas vezes, recusa em reconhecer realidades que não cabem nas normas tradicionais. Argumenta-se que “todes” “não existe na língua”. Mas a língua está viva. Ela muda porque a sociedade muda. Se fosse imutável, estaríamos ainda escrevendo vossa mercê em vez de você.
É pouco se comparado à urgência de mudanças estruturais. Mas é muito quando se trata de anunciar, ainda que sutilmente, que aqui cabem “todes”.
por Regina Papini Steiner
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