
Por muito tempo, o nome de Exu foi associado ao medo e à maldade, vítima de uma construção racista e colonial que demonizou religiões de matriz africana.
No imaginário popular moldado por séculos de desinformação, Exu foi confundido com o diabo cristão, sendo injustamente rotulado como entidade maligna. Mas essa distorção diz mais sobre os preconceitos da sociedade do que sobre o orixá em si.
Exu é, na verdade, uma das figuras mais complexas e simbólicas da espiritualidade africana. Guardião dos caminhos, senhor da comunicação e da linguagem, é ele quem liga os mundos e permite que a energia (axé) flua. Sem Exu, nada começa. E isso não é uma metáfora espiritual apenas: é uma lição cultural. O movimento que ele representa seja nos rituais, seja na vida cotidiana, é um lembrete de que tudo está em constante transformação.
O problema é que o Brasil, país de maioria negra, ainda carrega uma profunda ignorância sobre sua própria herança africana. Enquanto as imagens de santos católicos recebem flores em altares televisivos, representações de Exu são quebradas em terreiros. Essa desigualdade simbólica mostra que o racismo religioso não é exceção, mas regra em muitas partes do país.
É preciso descolonizar o olhar. Exu não é o mal é a força da escolha, da consequência, do equilíbrio. Reverenciá-lo é, também, reverenciar a história dos povos africanos escravizados, sua resistência e sua sabedoria. É reconhecer que nossas encruzilhadas sociais pedem, mais do que nunca, guias que nos ensinem a dialogar, mudar e seguir em frente com consciência.
Enquanto persistirmos no erro de temer o que não conhecemos, continuaremos cegos às riquezas que herdamos. Exu, com seu tridente, não ameaça. Ele aponta caminhos. E talvez esteja na hora de ouvir o que ele tem a dizer.
Regina Papini
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