
A política cultural é frequentemente entendida como um conjunto de ações institucionais, estatais, comunitárias ou privadas voltadas para reconhecimento, proteção e estímulo ao patrimônio simbólico de uma sociedade. Esse campo articula instrumentos administrativos e normativos, buscando democratizar o acesso à cultura, promover diversidade e garantir participação.
Por sua vez, a ética, no âmbito filosófico, trata dos valores e princípios que orientam a ação humana buscando responder perguntas como “Como devemos agir?” ou “O que é viver bem?” . Aristóteles, por exemplo, distingue os domínios da ética e da política: a ética preocupa-se com o bem do indivíduo, enquanto a política visa o bem da coletividade.
Essas duas esferas, cultural e ética, interagem de formas complexas. A política cultural, enquanto ação pública ou institucional, precisa estar necessariamente fundamentada em princípios éticos: justiça, equidade, respeito à diversidade, autonomia dos atores. Quando uma política cultural falha em levar isso em conta, corre o risco de instrumentalizar a cultura, subordinando-a a interesses políticos e ideológicos ou reproduzir desigualdades, exclusões e centralizações de poder.
Ética como norte nas escolhas culturais
A influência da ética no campo Das políticas culturais é dupla:
- Orientação das prioridades — Decidir quais expressões culturais apoiar (tradições marginalizadas, cultura popular, novas linguagens) envolve refletir sobre quem merece visibilidade e acesso, o que já é uma decisão ética que se manifesta em uma política.
- Procedimentos e avaliação — A forma como se avaliam projetos culturais precisa respeitar valores como justiça, transparência, equidade, imparcialidade e responsabilidade social . Isso evita vetos morais implícitos por preconceitos, favorecimentos e escolhas arbitrárias.
Além disso, a filosofia política contemporânea reforça que decisões políticas não são puramente técnicas: são também morais. Angela Ales Bello, por exemplo, lembra que mesmo atos como “fazer guerra” são escolhas morais com bases éticas que orientam ações políticas. Analogamente, políticas culturais exigem não só eficiência, mas também clareza sobre o que queremos para nossa comunidade cultural.
Visão crítica x visão participativa
A política cultural pode seguir diferentes modelos:
- Dirigismo cultural — quando o Estado impõe conteúdos ou regula fortemente a cultura;
- Liberalismo cultural — quando o mercado e o privado assumem o papel central, com pouca intervenção estatal;
- Democratização cultural — quando se entende a cultura como direito público, visando acesso ampliado e equitativo.
A democratização cultural, à luz de valores éticos, parece ser o caminho mais coerente com uma política cultural orientada por princípios de justiça social, inclusão e respeito à diversidade. Já o dirigismo pode conter vieses ideológicos e o liberalismo pode reproduzir desigualdades de acesso e de representatividade.
A política cultural, quando ética e bem fundamentada, contribui para construir uma sociedade mais justa ao valorizar narrativas diversas, promover o acesso equitativo e fortalecer o senso de pertencimento. No entanto, se as escolhas culturais forem feitas sem reflexão ética, correm o risco de reforçar exclusões: seja por interesses eleitorais, econômicos ou identitários.
Sendo assim, a política cultural deve ser um espaço de mediação entre o ético e o político: onde decisões concretas que envolvem alocação de recursos, reconhecimento simbólico, representatividade sejam tomadas com base em valores claros e compartilhados. Isso fortalece uma esfera cultural autônoma, legítima e plural.
Como colocou a experiência sueca no valor artístico intrínseco: a cultura deve ter status próprio, livre da captura política, mas as políticas públicas devem criar condições para seu florescimento . Esse é um ótimo exemplo de como conciliar política cultural e ética: manter um equilíbrio entre autonomia cultural e responsabilidade civil.
A política cultural orientada por princípios éticos não é apenas possível: é necessária. Precisa ser intencional, reflexiva e democrática. Quando pautada pela ética, ela não apenas protege e difunde cultura ela fortalece os valores que moldam uma sociedade mais justa e plural.
E você, como enxerga essa tensão ou confluência? Que exemplos de políticas culturais éticas você já viu?
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