
O Brasil envelhece, mas insiste em tratar o idoso como estorvo. O país que se gaba de sua diversidade e calor humano é o mesmo que descarta quem já deu sua vida ao trabalho, à família e à construção da sociedade. Aqui, envelhecer é um castigo, não um direito.
Hospitais sem estrutura, aposentadorias de fome, filas humilhantes no INSS, transporte público que mais parece campo de guerra. A realidade grita: o Estado falhou, e a sociedade se omite. É um pacto silencioso de desprezo contra quem já não produz no ritmo exigido pelo mercado e, portanto, não serve mais.
O idoso no Brasil é roubado em vida. Primeiro, quando trabalha décadas e recebe de volta uma aposentadoria que mal paga o arroz e o remédio. Depois, quando é vítima da violência mais covarde: o abandono das próprias famílias, a negligência institucional e o abuso financeiro de bancos que lucram com sua vulnerabilidade. E, quando denuncia, muitas vezes encontra autoridades inoperantes, incapazes até de guardar seus documentos.
É hipocrisia falar em “valorização da terceira idade” em um país que empurra idosos para corredores de hospital, os trata como peso morto em repartições e os reduz a estatísticas de violência doméstica. As campanhas publicitárias no “Dia do Idoso” soam como deboche: palmas de um lado, invisibilidade do outro.
O descaso com o idoso não é detalhe, é sintoma de um Brasil adoecido moralmente, que idolatra a juventude descartável e teme encarar o espelho do próprio futuro. Porque envelhecer, aqui, é ser condenado ao esquecimento.
A grande verdade é que o Brasil não respeita quem envelhece — e, ao negar dignidade aos seus idosos, nega dignidade a si mesmo. É um país que, sem memória e sem gratidão, está fadado a repetir sua própria crueldade.
Regina Papini Steiner
Deixe um comentário