Autor: Regina Papini

  • Intolerância, negligência e orgulho: o tripé que corrói a vida em sociedade

    Não é por falta de leis, de informação ou de discursos bem-intencionados que o convívio social segue adoecendo. O que falta, cada vez mais evidente, é disposição real para enfrentar três atitudes que se alimentam mutuamente e moldam nosso cotidiano: intolerância, negligência e orgulho. Juntas, elas formam um tripé que sustenta desde conflitos familiares até crises políticas e tragédias coletivas.

    A intolerância se revela na incapacidade de conviver com o diferente. Diferente na cor da pele, na fé, na orientação sexual, na opinião política ou até no simples jeito de viver. Não se trata apenas dos casos extremos, que rendem manchetes e processos judiciais. Ela está presente nas piadas “inofensivas” que desumanizam, nas agressões verbais das redes sociais, no silêncio cúmplice de quem vê uma injustiça e se omite. A intolerância começa quando alguém decide que o outro vale menos e termina, muitas vezes, em violência.

    A negligência é a irmã silenciosa da intolerância. É o “não é problema meu”, o “sempre foi assim”, o “não vai fazer diferença”. Ela aparece quando gestores ignoram alertas sobre desastres anunciados, quando autoridades deixam de investir em educação e saúde, quando empresas fecham os olhos para condições indignas de trabalho, quando cidadãos preferem virar o rosto diante da miséria na porta de casa. A negligência não é apenas ausência de ação; é uma escolha. Escolha que mata lentamente, por omissão.

    O orgulho, por sua vez, funciona como cola entre as duas. É ele que impede o pedido de desculpas, o reconhecimento do erro, a revisão de atitudes. É mais fácil reafirmar opiniões, mesmo quando os fatos as desmentem, do que admitir: “eu estava errado”. O orgulho prefere perder amigos a perder uma discussão, prefere manter relações quebradas a dar o primeiro passo para o diálogo. Em escala coletiva, alimenta polarizações, bloqueia acordos mínimos e transforma adversários em inimigos irreconciliáveis.

    Quando a intolerância desumaniza, a negligência naturaliza e o orgulho cristaliza, abre-se espaço para um tipo de barbárie cotidiana: pequena, difusa, mas constante. Ela se expressa no racismo “velado” que todos veem e poucos enfrentam; na violência de gênero tratada como problema privado; na pobreza transformada em paisagem. E, sobretudo, na recusa em aprender com o sofrimento alheio.

    Não é realista esperar uma sociedade sem conflitos ou divergências. Eles fazem parte da vida democrática. O que se pode – e se deve – esperar é uma sociedade capaz de discordar sem destruir, de divergir sem desumanizar, de reconhecer a própria parcela de responsabilidade pelo que dá errado. Isso exige mais do que leis punitivas; exige cultura de empatia, de escuta e de autocrítica.

    Romper esse tripé começa em níveis bem menos abstratos do que parece. Começa em admitir o preconceito internalizado, em não rir da piada discriminatória, em questionar a própria indiferença diante da injustiça. Começa quando um gestor assume que falhou, quando uma instituição revisa práticas excludentes, quando alguém decide ouvir de verdade quem pensa diferente. Parece pouco, mas é justamente nesses pequenos gestos que a intolerância perde força, a negligência perde desculpa e o orgulho perde terreno.

    Enquanto insistirmos em enxergar intolerância, negligência e orgulho como problemas dos outros, dos políticos, das “elites”, das “massas”, de “lado A” ou “lado B”, continuaremos alimentando o mesmo círculo vicioso. A pergunta incômoda, porém necessária, é outra: até que ponto cada um de nós, em nossas escolhas diárias, ajuda a sustentar esse tripé? A resposta, se for honesta, talvez seja o primeiro passo para desmontá-lo.

    por Regina Papini Steiner

  • A Ética Jornalística e a Fragilidade das Punições no Brasil.

    Foto By Terje Sollie

    Num cenário em que a informação circula em velocidade recorde e influencia diretamente decisões políticas, econômicas e sociais, a ética jornalística deveria ser instrumento de defesa da sociedade. Entretanto, no Brasil, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, embora bem estruturado em princípios, ainda é frágil em sua aplicação. Ele prevê penas que vão desde advertência à exclusão do quadro dos sindicatos, como descreve a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), mas não possui poder para impedir o exercício da profissão, já que não existe um conselho de classe capaz de regular o ingresso ou cancelar registros profissionais.

    Esse limite torna as penalidades mais simbólicas do que efetivas. Um exemplo claro ocorreu com o caso de plágio envolvendo a jornalista Joice Hasselmann, acusada de copiar dezenas de reportagens em seu blog. A decisão da Comissão de Ética, homologada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2023, impediu sua filiação ao sindicato um gesto importante, mas que não comprometeu sua atuação pública ou midiática. Na prática, a sanção afetou sua reputação, mas não seu alcance comunicativo.

    Ao mesmo tempo, casos envolvendo violação de privacidade e exposição sensacionalista, como o episódio que envolveu o colunista Leo Dias e a atriz Klara Castanho, mostram a urgência de mecanismos mais robustos que protejam a dignidade humana diante do interesse público. A FENAJ denunciou a conduta como uma violação expressa ao código, que determina respeito à intimidade e à imagem do cidadão. Ainda assim, a repercussão da denúncia produziu mais impacto social do que jurídico.

    O problema central, portanto, não está apenas no comportamento antiético de alguns comunicadores, mas na fragilidade institucional que dificulta punições equivalentes aos danos causados. Sem poder real de fiscalização e sem sanções proporcionais, permaneceremos dependentes do julgamento público, da pressão social e do constrangimento moral para corrigir desvios gravíssimos que podem destruir reputações, manipular fatos e prejudicar a democracia.

    Se a informação é um direito social, sua defesa precisa de mais do que códigos bem escritos. Precisa de meios para ser garantida. Como qualquer profissão que exerce papel público, o jornalismo deve ser protegido, e responsabilizado, não apenas pelos valores que proclama, mas pelas consequências que gera. A ética jornalística não pode ser apenas recomendação; precisa ser lei.

    Por Regina Papini Steiner

  • Retomar o olho no olho: um gesto simples que estamos perdendo.

    Vivemos a era em que tudo está ao alcance de um toque menos a profundidade das relações. O celular, que deveria aproximar, muitas vezes nos afasta do que realmente importa. Não é raro ver casais sentados à mesma mesa, dividindo o mesmo prato, mas não o mesmo olhar. Cada um imerso em sua tela, como se o mundo real fosse um incômodo temporário entre uma notificação e outra.

    Pais conversam com amigos pelo celular enquanto os filhos tentam, em silêncio, disputar um espaço que já deveria ser deles. Vira hábito: a criança fala, o adulto responde sem levantar os olhos, e a mensagem subliminar é dura, o digital é mais urgente que o afeto.

    Retomar o olho no olho, portanto, não é um romantismo ultrapassado. É um resgate. É lembrar que presença não se mede por proximidade física, mas por atenção verdadeira. É no olhar que percebemos nuances, emoções, aquilo que nenhuma tela consegue traduzir com fidelidade.

    Precisamos reaprender a estar juntos de verdade. Guardar o celular no bolso no jantar. Ouvir com o corpo inteiro. Trocar olhares que dizem mais que frases digitadas às pressas. Porque vínculos não se constroem com emojis, se constroem com presença.

    E talvez, ao levantarmos os olhos, percebamos que o que mais buscamos nas telas está, na verdade, bem à nossa frente.

    Regina Papini Steiner

  • O Governo Coca-cola: zero empatia e zero responsabilidade.

    A recente frase do governador Tarcísio de Freitas  “quando falsificarem Coca-Cola, vou me preocupar” não é apenas infeliz; é sintomática de uma visão de mundo em que o consumo e o lucro valem mais do que a vida e a segurança pública. Dita em tom de ironia, a declaração banaliza a gravidade de falsificações que, no caso, envolvem bebidas potencialmente tóxicas e mortes de consumidores.

    Ao comparar a falsificação de uma marca global a um problema que ceifa vidas, o governador reduz o papel do Estado, cuja função deveria ser justamente proteger o cidadão. A fala revela um distanciamento preocupante entre a autoridade e a realidade do povo  principalmente o mais pobre, que é o mais vulnerável aos produtos de risco.

    Enquanto famílias choram vítimas de produtos adulterados, o governador escolhe a piada fácil. Talvez, para ele, a tragédia só mereça atenção se vier com rótulo americano e gás importado. A ironia é que, no Brasil de Tarcísio, o que mais se falsifica não é a Coca-Cola  é a sensibilidade política, a responsabilidade pública e o compromisso com a vida.

    É curioso como, em vez de liderar investigações ou reforçar a fiscalização, o chefe do Estado prefere brincar com a tragédia. Talvez a dor do povo não seja “premium” o bastante para merecer atenção. Afinal, quem se importa com vidas quando o problema é a falta de uma marca global?

    Se o parâmetro de preocupação do governo é a Coca-Cola, então o cidadão comum que consome o “genérico” está condenado a ser invisível. No fundo, Tarcísio revelou mais do que quis: um governo que confunde ironia com inteligência e desumanidade com firmeza.

    Regina Papini Steiner

    Referência:

    • Entrevista coletiva do governador Tarcísio de Freitas, 2025, repercutida por veículos como Folha de S. Paulo e O Globo, sobre operações contra bebidas falsificadas no interior paulista.

  • A Guerra e o Lucro: o Preço da Ganância Humana

    Em meio às ruínas e ao desespero, a guerra continua sendo um negócio lucrativo para poucos e um sofrimento sem fim para muitos. Enquanto mulheres e crianças enfrentam a dor da perda, da fome e do medo, corporações e governos transformam a destruição em fonte de lucro. A guerra, travestida de estratégia política ou defesa nacional, é, na verdade, uma engrenagem do capitalismo mais cruel  aquele que se alimenta do sangue e das lágrimas dos inocentes.

    É urgente questionar: até quando a humanidade aceitará que a ambição de poder vale mais do que a vida?

    A guerra, por mais que se tente justificá-la com discursos de defesa, liberdade ou soberania, continua sendo uma das maiores expressões da ganância humana. Atrás dos uniformes e das bandeiras tremulando, existe um sistema econômico que se fortalece com cada bomba lançada, com cada vida perdida e com cada território devastado. As atrocidades de uma guerra não se limitam ao campo de batalha elas ecoam nas cidades destruídas, nos rostos das crianças órfãs e nas mulheres que carregam o fardo da ausência e do medo.

    Enquanto isso, grandes corporações bélicas acumulam lucros bilionários. Empresas de armas, de tecnologia militar e de reconstrução competem entre si por contratos que transformam o sofrimento humano em cifras. Para os que estão no topo, cada conflito é uma oportunidade de negócio; para os que estão nas margens, é a perda de tudo o que têm. A guerra se torna, assim, uma engrenagem essencial do capitalismo mais perverso  aquele que vê na morte um investimento e no caos, uma chance de crescimento.

    No meio desse cenário, a humanidade se distancia cada vez mais de sua própria essência. Fala-se em progresso, mas o que se vê é retrocesso moral. Nenhum discurso político justifica o sofrimento imposto a inocentes. É preciso romper o ciclo que transforma vidas em estatísticas e corpos em moeda de troca. A verdadeira vitória será o dia em que a paz deixar de ser um ideal distante e se tornar a prioridade real de todos os povos.

    Regina Papini Steiner

  • O descaso generalizado ao idoso no Brasil

    O Brasil envelhece, mas insiste em tratar o idoso como estorvo. O país que se gaba de sua diversidade e calor humano é o mesmo que descarta quem já deu sua vida ao trabalho, à família e à construção da sociedade. Aqui, envelhecer é um castigo, não um direito.

    Hospitais sem estrutura, aposentadorias de fome, filas humilhantes no INSS, transporte público que mais parece campo de guerra. A realidade grita: o Estado falhou, e a sociedade se omite. É um pacto silencioso de desprezo contra quem já não produz no ritmo exigido pelo mercado e, portanto, não serve mais.

    O idoso no Brasil é roubado em vida. Primeiro, quando trabalha décadas e recebe de volta uma aposentadoria que mal paga o arroz e o remédio. Depois, quando é vítima da violência mais covarde: o abandono das próprias famílias, a negligência institucional e o abuso financeiro de bancos que lucram com sua vulnerabilidade. E, quando denuncia, muitas vezes encontra autoridades inoperantes, incapazes até de guardar seus documentos.

    É hipocrisia falar em “valorização da terceira idade” em um país que empurra idosos para corredores de hospital, os trata como peso morto em repartições e os reduz a estatísticas de violência doméstica. As campanhas publicitárias no “Dia do Idoso” soam como deboche: palmas de um lado, invisibilidade do outro.

    O descaso com o idoso não é detalhe, é sintoma de um Brasil adoecido moralmente, que idolatra a juventude descartável e teme encarar o espelho do próprio futuro. Porque envelhecer, aqui, é ser condenado ao esquecimento.

    A grande verdade é que o Brasil não respeita quem envelhece — e, ao negar dignidade aos seus idosos, nega dignidade a si mesmo. É um país que, sem memória e sem gratidão, está fadado a repetir sua própria crueldade.

    Regina Papini Steiner

  • Uma tensão produtiva

    política cultural é frequentemente entendida como um conjunto de ações institucionais, estatais, comunitárias ou privadas voltadas para reconhecimento, proteção e estímulo ao patrimônio simbólico de uma sociedade. Esse campo articula instrumentos administrativos e normativos, buscando democratizar o acesso à cultura, promover diversidade e garantir participação.

    Por sua vez, a ética, no âmbito filosófico, trata dos valores e princípios que orientam a ação humana buscando responder perguntas como “Como devemos agir?” ou “O que é viver bem?” . Aristóteles, por exemplo, distingue os domínios da ética e da política: a ética preocupa-se com o bem do indivíduo, enquanto a política visa o bem da coletividade.

    Essas duas esferas, cultural e ética, interagem de formas complexas. A política cultural, enquanto ação pública ou institucional, precisa estar necessariamente fundamentada em princípios éticos: justiça, equidade, respeito à diversidade, autonomia dos atores. Quando uma política cultural falha em levar isso em conta, corre o risco de instrumentalizar a cultura, subordinando-a a interesses políticos e ideológicos ou reproduzir desigualdades, exclusões e centralizações de poder.


    Ética como norte nas escolhas culturais

    A influência da ética no campo Das políticas culturais é dupla:

    1. Orientação das prioridades — Decidir quais expressões culturais apoiar (tradições marginalizadas, cultura popular, novas linguagens) envolve refletir sobre quem merece visibilidade e acesso, o que já é uma decisão ética que se manifesta em uma política.
    2. Procedimentos e avaliação — A forma como se avaliam projetos culturais precisa respeitar valores como justiça, transparência, equidade, imparcialidade e responsabilidade social . Isso evita vetos morais implícitos por preconceitos, favorecimentos e escolhas arbitrárias.

    Além disso, a filosofia política contemporânea reforça que decisões políticas não são puramente técnicas: são também morais. Angela Ales Bello, por exemplo, lembra que mesmo atos como “fazer guerra” são escolhas morais com bases éticas que orientam ações políticas. Analogamente, políticas culturais exigem não só eficiência, mas também clareza sobre o que queremos para nossa comunidade cultural.


    Visão crítica x visão participativa

    A política cultural pode seguir diferentes modelos:

    • Dirigismo cultural — quando o Estado impõe conteúdos ou regula fortemente a cultura;
    • Liberalismo cultural — quando o mercado e o privado assumem o papel central, com pouca intervenção estatal;
    • Democratização cultural — quando se entende a cultura como direito público, visando acesso ampliado e equitativo.

    A democratização cultural, à luz de valores éticos, parece ser o caminho mais coerente com uma política cultural orientada por princípios de justiça social, inclusão e respeito à diversidade. Já o dirigismo pode conter vieses ideológicos e o liberalismo pode reproduzir desigualdades de acesso e de representatividade.

    A política cultural, quando ética e bem fundamentada, contribui para construir uma sociedade mais justa ao valorizar narrativas diversas, promover o acesso equitativo e fortalecer o senso de pertencimento. No entanto, se as escolhas culturais forem feitas sem reflexão ética, correm o risco de reforçar exclusões: seja por interesses eleitorais, econômicos ou identitários.

    Sendo assim, a política cultural deve ser um espaço de mediação entre o ético e o político: onde decisões concretas que envolvem alocação de recursos, reconhecimento simbólico, representatividade sejam tomadas com base em valores claros e compartilhados. Isso fortalece uma esfera cultural autônoma, legítima e plural.

    Como colocou a experiência sueca no valor artístico intrínseco: a cultura deve ter status próprio, livre da captura política, mas as políticas públicas devem criar condições para seu florescimento . Esse é um ótimo exemplo de como conciliar política cultural e ética: manter um equilíbrio entre autonomia cultural e responsabilidade civil.

    A política cultural orientada por princípios éticos não é apenas possível: é necessária. Precisa ser intencional, reflexiva e democrática. Quando pautada pela ética, ela não apenas protege e difunde cultura  ela fortalece os valores que moldam uma sociedade mais justa e plural.

    E você, como enxerga essa tensão ou confluência? Que exemplos de políticas culturais éticas você já viu? 

  • A importância da Calma nas decisões!

    Vivemos tempos acelerados. As redes sociais nos empurram para respostas rápidas, as manchetes se atropelam em nossos celulares, os prazos encurtam. Tudo nos leva a crer que decidir com urgência é sinônimo de inteligência ou eficiência. Mas será?

    A pressa tem se tornado um vício disfarçado de virtude. No entanto, decisões tomadas sob pressão ou impulsividade têm um custo alto pessoal, social e até institucional. Quando falta a calma, sobra espaço para o erro.

    Na vida pública, quantas políticas foram implantadas às pressas, sem escuta, sem debate, apenas para dar uma resposta imediata a uma crise ou agradar um público momentâneo? O resultado, muitas vezes, é desastroso: leis ineficazes, retrocessos sociais e desperdício de recursos.

    Na vida privada, não é diferente. Decidir uma mudança de carreira, um relacionamento ou um rompimento em momentos de tensão raramente leva ao melhor desfecho. A calma, por outro lado, não é sinônimo de passividade ela é a base da sabedoria. É na pausa que se ouve com mais atenção, se observa o cenário com clareza e se toma decisões mais justas, duradouras e éticas.

    A calma permite que sentimentos como raiva, medo ou vaidade não ditem nossos passos. Ela nos devolve o protagonismo racional. E isso não significa ser lento ou indeciso. Significa ter firmeza e serenidade para agir com consciência, mesmo diante do caos.

    Numa sociedade cada vez mais reativa, a calma virou um ato de resistência. Cultivá-la é um exercício diário, quase político, de cuidado com o outro e com nós mesmos. Afinal, o futuro é construído pelas decisões de hoje e elas merecem o melhor de nós: lucidez, escuta e tempo.

    Regina Papini Steiner

  • Conectados demais para estarmos juntos?

    Vivemos grudados nas telas. É reunião no Zoom, scroll infinito no Instagram, vídeos no TikTok, grupos no WhatsApp e, ironicamente, tudo isso nos deixa cada vez mais… sozinhos.

    As horas gastas na internet não são mais simples passatempos: elas moldam nossos hábitos, relações e até mesmo nosso jeito de sentir. Enquanto trocamos “likes”, perdemos olhares. Respondemos mensagens, mas adiamos conversas. E na tentativa de estar com todos, às vezes não estamos com ninguém.

    Estudos recentes da Organização Mundial da Saúde mostram que o uso excessivo de telas está ligado ao aumento da ansiedade, insônia e à diminuição da empatia. Não por acaso, cresce a quantidade de pessoas que se sentem desconectadas mesmo rodeadas de notificações. Onde está o laço humano que nos sustentava?

    Claro, a internet também aproxima. Amizades nascem em fóruns, amores surgem em aplicativos, causas ganham voz nas redes. Mas o que era ponte, virou prisão. O problema não é a internet, é o exagero. O desequilíbrio. A dependência.

    Talvez o maior ato de amor próprio e social neste tempo seja olhar no olho. Desligar o celular por algumas horas. Marcar um café sem filtro, sem selfie, sem story. A vida social começa quando a gente aparece de verdade.

    Por Regina Papini Steiner

  • Ignorância e Arrogância: Trump no poder e a resposta inteligente de Lula e do mundo

    Com Donald Trump novamente na presidência dos Estados Unidos, o mundo assiste à volta de uma política externa marcada por ignorância, arrogância e desprezo pelo diálogo multilateral. Seu retorno ao cargo mais poderoso do planeta reacende tensões diplomáticas, entre elas as relações com o Brasil tratadas por Trump com superficialidade, estigmas e desinformação.

    Trump não demonstra o menor interesse em compreender o papel estratégico do Brasil no cenário ambiental global. Para ele, a Amazônia é apenas uma peça no jogo de interesses econômicos, ignorando que sua preservação é vital para o equilíbrio climático do planeta. Em discursos recentes, voltou a atacar políticas ambientais e a desdenhar dos esforços internacionais de combate à mudança climática  postura que isola os EUA e tenta empurrar países como o Brasil para um alinhamento desastroso.

    Diante dessa postura retrógrada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem representado uma alternativa lúcida. Em sua diplomacia firme e responsável, Lula reafirma o compromisso do Brasil com a democracia, o meio ambiente e os direitos humanos. Em contraste com os arroubos de Trump, Lula busca a construção de pontes  com a América Latina, com a Europa, com a África e com os países da Ásia , reforçando a imagem de um Brasil que voltou ao debate internacional com inteligência e propósito.  Lula tem se empenhado em fortalecer os laços latino-americanos, apostando na cooperação regional e na valorização de uma identidade comum baseada na justiça social, na integração econômica e no respeito à diversidade. Ao mesmo tempo, o Brasil sob Lula tem reafirmado seu protagonismo no BRICS, buscando um sistema internacional mais justo, onde países em desenvolvimento tenham voz real nas decisões globais.

    A resposta do mundo, aos poucos, também se desenha: cresce a rejeição ao autoritarismo performático e à política do confronto. Líderes como Trump, que transformam a ignorância em bandeira e a arrogância em método de governo, enfrentam uma resistência crescente da sociedade civil, da imprensa livre e de países que se recusam a ser cúmplices de retrocessos.

    Lula, com sua história e experiência, representa uma outra lógica: a do diálogo, da soberania com responsabilidade e da política como instrumento de paz e justiça social. Em tempos tão instáveis, essa postura não é apenas necessária é urgente.

    por Regina Papini Steiner