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  • Cinema nacional em 2025: resistência, reinvenção e potência

    por Regina Papini Steiner

    Em 2025, o cinema brasileiro não apenas sobrevive, ele resiste, se reinventa e floresce. Após anos de sufocamento político e cortes de incentivo, a produção nacional volta a ocupar seu lugar de direito nas telas e no imaginário popular. Com narrativas plurais, estéticas ousadas e uma identidade cada vez mais enraizada na diversidade do país, o audiovisual brasileiro prova, mais uma vez, que cultura não é gasto — é investimento, é força.

    Não foi fácil chegar até aqui. O setor enfrentou uma longa travessia marcada por desmontes de políticas públicas, desmonte da Ancine, censura velada e desvalorização simbólica. O resultado foi um apagão produtivo que paralisou projetos, fechou salas de cinema e afastou talentos. Mas o cinema nacional, teimoso por natureza, encontrou meios de continuar contando suas histórias.

    A chegada de 2025 marca uma virada. Com a retomada de editais, reestruturação do Fundo Setorial do Audiovisual e o fortalecimento de políticas regionais, o país vê surgir uma nova safra de produções. Filmes que saem das grandes capitais e encontram eco nas periferias, nos interiores, nas “Amazônias”, tanto geográficas quanto simbólicas.

    É um cinema mais negro, mais indígena, mais LGBTQIA+, mais feminino. Um cinema que incomoda e emociona, que discute violência, amor, memória e pertencimento. Ao mesmo tempo, há espaço para o humor, para o drama popular, para o terror autoral. As bilheterias ainda não voltaram aos níveis pré-pandemia, é verdade. Mas o que falta em números, sobra em relevância.

    Plataformas de streaming continuam a ser parceiras e, ao mesmo tempo, desafios. A presença de produções brasileiras nesses espaços cresce, mas o controle algorítmico sobre o que chega ao público exige vigilância constante. Democratizar o acesso ao audiovisual vai além de estar disponível online, é garantir visibilidade, formação de público e políticas de fomento permanentes.

    O cinema brasileiro de 2025 não quer apenas sobreviver ,quer ser celebrado. E para isso, é preciso que o público abrace sua própria história. Que vá ao cinema, que assista às produções nacionais, que defenda a cultura como parte do que somos. Porque, em um país onde tantas vezes tentaram silenciar vozes, cada filme é também um ato de afirmação.

  • Crescimento do PIB: hora de comemorar ou refletir?

    por Regina Papini Steiner

    O Brasil surpreendeu o mundo, e a si mesmo, ao registrar um crescimento de 1,4% no Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre de 2025. O número coloca o país na quinta posição entre as maiores altas econômicas do período, considerando 49 nações analisadas. Um feito raro, que merece ser reconhecido. Mas também observado com lupa.

    Afinal, crescimento de PIB, por si só, não significa desenvolvimento. Os números macroeconômicos podem soar promissores nos discursos oficiais, mas não necessariamente refletem a realidade sentida no cotidiano da maioria da população. O desafio está justamente aí: transformar expansão econômica em bem-estar social.

    É preciso perguntar: esse crescimento se deu com geração de empregos de qualidade? Houve avanço na renda das famílias, melhora na educação, investimentos em saúde, mobilidade e saneamento? Ou estamos apenas diante de um crescimento puxado por setores primários, como agronegócio e exportações, sem impacto duradouro na vida das pessoas?

    O momento atual exige cautela. O crescimento pode ser sinal de retomada,  algo esperado após anos de instabilidade fiscal, inflação descontrolada e paralisia nos investimentos públicos. Mas também pode ser um voo de galinha, impulsionado por circunstâncias temporárias, como o aumento do consumo de curto prazo, incentivos fiscais pontuais ou flutuações cambiais.

    Por outro lado, é inegável que o resultado fortalece a imagem do Brasil em um cenário global ainda instável. Enquanto muitas economias desenvolvidas enfrentam estagnação ou retração, o Brasil mostra fôlego. Isso pode atrair investidores, aumentar a confiança interna e abrir espaço para reformas estruturais.

    Mas nenhum número pode ser analisado isoladamente. A desigualdade social ainda é gritante. A fome, o desemprego informal e o acesso desigual aos serviços básicos continuam a comprometer o real significado de “crescimento”.

    Celebrar os 1,4% é justo. Mas celebrar com responsabilidade é necessário. Porque mais importante do que crescer, é crescer para todos.

  • Casa da Favela na FLIP 2025: a literatura que rompe muros

    A presença da Casa da Favela pela terceira vez na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) é mais do que uma ação cultural, é um ato político. Em um país marcado por desigualdades históricas, levar as vozes das periferias ao centro de um dos eventos literários mais prestigiados do Brasil significa romper com a lógica elitista que por muito tempo dominou os espaços da literatura e do pensamento intelectual.

    E, neste ano, a participação de Conceição Evaristo no espaço reforça a potência dessa ruptura. Autora de uma obra marcada pela “escrevivência”, Evaristo tem sido uma das maiores representantes da literatura negra e periférica brasileira, com narrativas que partem da vivência pessoal para denunciar, emocionar e mobilizar. Sua presença na Casa da Favela não é apenas simbólica — é um manifesto vivo da urgência em democratizar o acesso à cultura e dar protagonismo às vozes historicamente silenciadas.

    A FLIP, por muito tempo restrita a nomes consagrados do mercado editorial, vem se abrindo aos poucos para a pluralidade brasileira. Mas não se trata apenas de abrir espaço. É preciso garantir centralidade. A Casa da Favela não quer ser apêndice da festa — quer ser núcleo de uma nova narrativa, onde favelas não são retratadas apenas como lugares de ausência, mas como potências criativas, intelectuais e literárias.

    A edição de 2025 acontece num momento crucial, em que o país ainda luta para redefinir sua identidade cultural diante das marcas do autoritarismo recente, da intolerância e da elitização da arte. A favela, quando ocupa a FLIP, leva consigo as marcas do território, da coletividade, da resistência. E quando Conceição Evaristo fala, é como se falasse um coral de mulheres negras, mães, filhas, vizinhas — todas aquelas que a literatura tradicional muitas vezes ignorou.

    A Casa da Favela é uma espécie de quilombo literário em pleno século XXI. É ali onde a oralidade se encontra com o livro, onde o batuque vira poesia, onde a sobrevivência se transforma em estética. E isso é literatura da mais alta qualidade.

    Mais do que um espaço, a Casa da Favela é um espelho que reflete o Brasil que queremos: múltiplo, justo, e profundamente humano.

    por Regina Papini Steiner

    30 de maio de 2025

  • A Dor da Perda: Quando a Ausência Vira Notícia Silenciosa

    Perder alguém próximo é uma experiência universal, mas que raramente ganha o espaço e o cuidado que merece no debate público. Para além dos números frios de estatísticas, sejam vítimas da violência, de acidentes, de doenças ou de Guerras, há famílias despedaçadas, histórias interrompidas e um silêncio emocional que muitas vezes se prolonga por anos.

    O luto é um processo psicológico e social. Ele não se resume ao choro ou à saudade, envolve uma reconstrução interna diante da ausência. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o luto prolongado pode afetar significativamente a saúde mental e física, desencadeando quadros de depressão, ansiedade e até doenças cardiovasculares.

    Apesar disso, o enlutado muitas vezes enfrenta solidão. A sociedade cobra resiliência imediata e tende a silenciar o sofrimento alheio. “As pessoas dizem que o tempo cura tudo, mas não é o tempo, é o acolhimento”, afirma a psicóloga clínica Ana C. Duarte, especialista em luto.

    O tema ganha ainda mais peso quando envolve perdas violentas, como homicídios ou crimes de ódio. Nestes casos, além da dor, há a revolta, a sensação de injustiça e o abandono por parte das instituições. A dor não é só da perda, é da impunidade.

    Reportar a dor da perda exige cuidado e responsabilidade. É preciso ouvir com empatia, contextualizar os dados e, sobretudo, lembrar que por trás de cada vítima há uma rede de afetos que também sangra. A dor da perda, afinal, não termina no fim da matéria, ela segue vivendo nas ausências diárias de quem fica.

    Por Regina Papini Steiner

  • Entre o Homem, a Guerra e a Paz

    por Regina Papini Steiner

    Há algo de profundamente contraditório no coração humano: o mesmo ser capaz de criar pontes também ergue muros; o mesmo que canta à liberdade ergue bandeiras para morrer por fronteiras. O homem, desde os primeiros passos na terra, carrega em si a semente da criação e da destruição.

    A guerra não nasce por acaso — ela germina no orgulho, floresce na ganância e frutifica na ilusão do poder. Em nome de ideias, de deuses e de pátrias, o homem marcha contra o próprio reflexo, esquecendo que, ao empunhar uma arma, fere a si mesmo mais do que ao outro. O campo de batalha é menos geográfico do que íntimo; é dentro do homem que a guerra primeiro começa.

    E, ainda assim, existe a paz — tênue, às vezes silenciosa, mas resistente. A paz não é ausência de conflito, mas a escolha diária de não alimentar o ódio. Ela é construída com escuta, cultivada com empatia e sustentada com coragem. Não a coragem de quem atira primeiro, mas a de quem estende a mão.

    Entre a guerra e a paz, o homem oscila como chama ao vento. Mas há esperança: a cada gesto de compaixão, a cada palavra que consola ao invés de ferir, o pêndulo se inclina para o lado da vida. Que o homem, enfim, descubra que o verdadeiro heroísmo não está em vencer o outro, mas em vencer a si mesmo.

  • Afeganistão em Ruínas: O Custo Humano de uma Guerra que Não Acabou

    Crise humanitária se agrava sob o regime do Talibã enquanto milhões enfrentam fome, insegurança e violações de direitos básicos

    Foto por Ahmed akacha em Pexels.com

    Por Regina Papini Steiner
    26 de maio de 2025

    CABUL — Quase três anos após a retirada das tropas norte-americanas e a retomada do poder pelo Talibã, o Afeganistão continua mergulhado em uma das maiores crises humanitárias do mundo. Em um cenário de escassez de alimentos, colapso econômico e repressão aos direitos humanos, especialmente de mulheres e crianças, a população civil paga o preço mais alto por uma guerra que, embora silenciada nas manchetes, está longe de terminar.

    De acordo com dados recentes da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 28 milhões de afegãos — cerca de dois terços da população — precisam urgentemente de assistência humanitária em 2025. O colapso do sistema bancário, o desemprego generalizado e as sanções internacionais agravaram a fome e o sofrimento em comunidades já devastadas por décadas de conflitos.

    O retorno do Talibã ao poder, em agosto de 2021, trouxe de volta restrições severas à liberdade, especialmente para as mulheres. Desde então, meninas foram proibidas de frequentar escolas acima do ensino fundamental em muitas regiões, e mulheres foram excluídas do mercado de trabalho, da mídia e até de parques públicos. Organizações de direitos humanos denunciam uma repressão sistemática, que inclui detenções arbitrárias e punições públicas.

    “É como se tivéssemos voltado no tempo. Perdemos tudo: a liberdade, o trabalho, o futuro das nossas filhas”, relata Amina*, ex-professora em Herat, que agora vive escondida após protestar por direitos básicos.

    Apesar da atuação de diversas ONGs, como Médicos Sem Fronteiras, UNICEF, Save the Children e o Programa Mundial de Alimentos (WFP), a distribuição de ajuda enfrenta obstáculos diários. Restrições impostas pelo Talibã, falta de segurança e bloqueios logísticos dificultam o acesso às áreas mais necessitadas.

    “Estamos trabalhando em condições extremamente limitadas. Muitos profissionais foram forçados a sair do país ou a operar em sigilo”, explica uma coordenadora da ONG Norwegian Refugee Council, sob condição de anonimato.

    Além disso, a comunidade internacional enfrenta o dilema ético de como oferecer ajuda sem legitimar um regime acusado de violar sistematicamente os direitos humanos.

    Enquanto o mundo se volta para outros conflitos, como a guerra na Ucrânia ou os embates no Oriente Médio, o Afeganistão desaparece gradualmente da atenção global. A falta de cobertura contínua contribui para o esquecimento de uma população que ainda vive sob o som dos drones, a ameaça de minas terrestres e a incerteza do amanhã.

    O Afeganistão enfrenta agora não apenas os escombros físicos da guerra, mas uma reconstrução social profundamente desafiadora. Sem ações concretas da comunidade internacional e sem garantias mínimas de direitos, o povo afegão continuará sofrendo invisível aos olhos do mundo.

    *Nome alterado por motivos de segurança.

  • Mentes Diversas, Ciência Mais Forte

    Como a pluralidade de vozes transforma a pesquisa científica no Brasil.

    Por Regina Papini Steiner

    Por muito tempo, a ciência foi apresentada como neutra, objetiva e universal. Mas basta um olhar atento aos corredores das universidades e centros de pesquisa para perceber: ainda hoje, a produção científica no Brasil carrega marcas de exclusão. Mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e oriundas de periferias, são populações historicamente negligenciadas, nos espaços de decisão e liderança acadêmica. Isso, no entanto, vem mudando e para melhor.

    A diversidade, cada vez mais, tem sido reconhecida como um recurso estratégico para o avanço científico. Estudos internacionais mostram que equipes compostas por pessoas com origens, trajetórias e visões distintas são mais inovadoras, têm maior capacidade de resolver problemas complexos e produzem conhecimento com maior impacto social. No Brasil, diversas iniciativas vêm transformando essa teoria em prática.

    Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o coletivo Negras na Ciência reúne pesquisadoras negras de diferentes áreas para desenvolver estudos sobre saúde, educação e políticas públicas. “Somos mais do que estatística de sub-representação. Produzimos ciência com a marca da resistência e da coletividade”, afirma a professora Aline Santos, uma das líderes do grupo.

    Já na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), políticas de cotas em programas de pós-graduação começaram a alterar o perfil dos pesquisadores. Segundo dados da própria instituição, o número de estudantes negros na pós cresceu 180% entre 2019 e 2024. E isso se reflete nos temas das pesquisas: aumento nos estudos sobre desigualdades, saúde da população negra, saberes tradicionais e impactos ambientais em territórios periféricos.

    A pluralidade também se manifesta nas tecnologias. Na PUC-SP, o grupo de Bioinformática Diversa, coordenado por Rafael Gomes; homem trans e pesquisador; desenvolve algoritmos voltados ao mapeamento genético de populações subestudadas. “Quando só um perfil domina a ciência, muita coisa fica invisível. A diversidade nos permite ver onde antes havia cegueira institucional”, afirma Rafael.

    Não se trata apenas de justiça social. A inclusão impacta diretamente a qualidade do conhecimento produzido. “Quando incorporamos saberes indígenas, por exemplo, na pesquisa sobre biodiversidade, ganhamos em precisão, sustentabilidade e inovação”, destaca a antropóloga Luana Yawanawa, que atua como ponte entre pesquisadores e comunidades da Amazônia.

    Ainda há muitos desafios. Racismo, machismo e LGBTfobia continuam presentes no meio acadêmico. Muitos talentos desistem antes de chegar ao doutorado, e as estruturas institucionais ainda precisam mudar. Mas o caminho está sendo trilhado.

    “Mentes diversas produzem uma ciência mais forte, mais criativa e mais conectada com os desafios reais da sociedade brasileira”, conclui Aline Santos. O futuro da ciência passa, necessariamente, pela inclusão não apenas como valor moral, mas como método científico.

  • Culturas nacionais: entre a construção identitária e a necessidade de pluralidade

    Por Regina Papini

    A ideia de “cultura nacional” tem sido central tanto em debates acadêmicos quanto na vida cotidiana, refletindo uma tentativa de consolidar um sentimento de pertencimento coletivo e coesão social. Porém, ao mesmo tempo, esse conceito desperta questionamentos sobre os limites da construção identitária e sua relação com as práticas excludentes e com a preservação de uma visão homogênea da sociedade.

    Em um contexto global marcado pela crescente mobilidade e interconectividade, o que deveria ser um ponto de orgulho ; a cultura nacional; também pode se tornar uma ferramenta de isolamento e de reafirmação de narrativas hegemônicas. As culturas nacionais, muitas vezes moldadas por uma visão essencialista de um “povo originário”, não raramente minimizam a complexidade das realidades internas. No Brasil, por exemplo, a construção de uma “identidade nacional” frequentemente deixa de fora a diversidade dos grupos indígenas, afrodescendentes, imigrantes e mesmo as culturas regionais que coexistem e influenciam o tecido social de forma significativa.

    Essa problemática não é exclusiva do Brasil. Em várias partes do mundo, as narrativas nacionais podem se tornar dogmas, nos quais minorias são frequentemente apagadas ou marginalizadas. É preciso reconhecer que, em países como o Japão ou a França, as noções de identidade nacional muitas vezes se alimentam de um ideal de pureza cultural, que não apenas desconsidera as influências externas, mas também deslegitima as experiências internas de transformação cultural e multiculturalismo.

    O desafio acadêmico reside, então, em desconstruir a ideia de uma cultura nacional como algo estático, imutável, e homogêneo. Para tanto, deve-se promover uma visão mais inclusiva, capaz de reconhecer a multiplicidade de experiências, influências e tensões que caracterizam o cotidiano das sociedades contemporâneas. Em lugar de uma unidade monolítica, as culturas nacionais precisam ser entendidas como espaços dinâmicos e plurais, permeados por diálogos constantes entre diferentes vozes e contextos históricos.

    O conceito de cultura nacional, portanto, não deve ser ignorado, mas também não deve ser absolutizado. Em um mundo que cada vez mais se distancia de fronteiras físicas e que convive com a ideia de cidadanias múltiplas, a construção de identidades coletivas precisa estar atenta a novos parâmetros de inclusão. A cultura não é apenas o que une, mas também o que pode dividir. E, por isso, a reflexão acadêmica sobre as culturas nacionais deve ser orientada para uma abordagem crítica, que contemple as diversas narrativas e as complexidades que elas envolvem.

    A verdadeira identidade cultural de uma nação não é encontrada apenas no folclore, na música ou nos costumes superficiais, mas nas múltiplas interações que ocorrem entre as várias camadas da sociedade. O futuro das culturas nacionais dependerá de nossa capacidade de acolher a pluralidade e de compreender que a história, longe de ser um relato homogêneo, é marcada por contínuas reconfigurações e confrontos de memória. Assim, as culturas nacionais podem, sim, ser o ponto de partida para o diálogo global, desde que se distanciem de qualquer tentação de exclusão ou imposição única de identidade.

  • Boné Anti-Trump:

    Quando um acessório se torna arma Política.

     Por Regina Papini

    Como jornalista, observo com atenção o papel que símbolos aparentemente simples – como um boné – podem desempenhar nas disputas políticas contemporâneas. O “boné anti-Trump”, usado em protestos e manifestações de repúdio à figura do presidente dos EUA, transcende sua materialidade para se tornar um estandarte político de alcance global. Seu impacto é sentido também no Brasil, especialmente quando a cobertura midiática se debruça sobre seu significado e seus desdobramentos.

    Na análise feita pela Carta Capital, o boné é retratado como um símbolo progressista, associado a uma crítica direta ao avanço do populismo autoritário. A revista adota uma linha editorial que o posiciona como uma peça de resistência cultural e política – quase um artefato de oposição simbólica ao conservadorismo internacional. A publicação enfatiza os valores de inclusão, diversidade e justiça social, ressaltando como o boné funciona como um contraponto visual ao “Make America Great Again” (MAGA), ícone do trumpismo. É um posicionamento alinhado à linha editorial combativa da Carta, que há tempos se coloca como uma trincheira contra a ascensão conservadora.

    Já o Núcleo Jornalismo, que veicula conteúdos principalmente via Telegram, oferece uma perspectiva mais analítica e menos engajada emocionalmente. A análise foca no fenômeno da viralização de símbolos políticos e no papel das redes sociais na consolidação de “marcas ideológicas”. O boné anti-Trump é estudado quase como um objeto de estudo da cultura digital, destacando como esses elementos visuais funcionam como dispositivos de identidade política. O Núcleo não endossa nem critica diretamente o uso do boné, mas propõe reflexões importantes sobre sua eficácia na mobilização social e os limites entre ativismo e performatividade. Essa neutralidade analítica contribui para uma compreensão mais complexa do fenômeno, mas aponta atenção com relação a Ditadura.

    Em contraponto, a plataforma de YouTube do Terra Brasil adota um tom abertamente crítico ao boné e ao que ele representa. Em vídeos opinativos com forte apelo emocional e retórica combativa, o boné anti-Trump é descrito como um símbolo da “lacração”, um instrumento de provocação política que mais divide do que une. O Presidente do Brasil posou com o acessório em seus perfis oficiais , e a frase no Boné era: “O Brasil é dos Brasileiros”. Os vídeos ironizam o uso do acessório, associando-o a uma suposta elite intelectual desconectada do “cidadão comum”. A linha editorial do Terra Brasil flerta com o discurso conservador e reforça uma narrativa de reação à cultura progressista, o que reduz a possibilidade de debate plural e construtivo sobre o tema.

    Dessa forma, a leitura crítica dessas três fontes revela não apenas diferentes formas de ver o boné anti-Trump, mas também diferentes visões sobre a própria função do jornalismo na sociedade. Enquanto Carta Capital reforça seu papel militante, o Núcleo aposta na análise tecnopolítica e o Terra Brasil, por sua vez, recorre à retórica da polarização e da guerra cultural.

    Acredito que símbolos como o boné anti-Trump têm, sim, valor na luta contra discursos autoritários. Mas também é essencial que a mídia não se limite a explorar essas imagens de maneira simplista ou sensacionalista. Vejo valor em símbolos que desafiam o “status quo” e expõem as feridas da democracia. Mas também  reconheço o risco de transformarmos cada peça de roupa em um slogan, esvaziando o discurso em nome da estética. A resistência verdadeira vai além do que se veste: ela está no conteúdo, na ação concreta e no compromisso com a verdade.

    Nosso desafio é ir além da superfície, revelando os mecanismos que transformam objetos em ícones, e ícones em armas no campo de batalha político. Mais do que nunca, o jornalismo precisa ser a ferramenta que ilumina, e não apenas amplifica, o ruído simbólico da nossa era.

    O boné anti-Trump pode ser um gesto. Mas a pergunta que fica é: o que estamos fazendo, de fato, para que ele não seja apenas isso?

  • Desconstruindo o Mito do Galã.

    A virilidade é um conceito que tradicionalmente se refere às características associadas à masculinidade, como força, coragem, vigor,  físico,  sexual e assertividade.

    No contexto dos atores, a representação da virilidade pode variar dependendo do papel que desempenham, da cultura em que estão inseridos e das expectativas do público.

    A representação da virilidade por atores pode ter um impacto significativo na cultura e nas normas de gênero. Ela pode reforçar estereótipos ou, alternativamente, desafiar e expandir as noções do que significa ser masculino.

    Muitos atores são escolhidos para papéis de heróis ou protagonistas que encarnam ideais de virilidade. Exemplos clássicos incluem personagens interpretados por atores como Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e Dwayne “The Rock” Johnson, que frequentemente representam força física e coragem.

    Em contraste, alguns atores são conhecidos por interpretar anti-heróis que desafiam os estereótipos tradicionais de virilidade. Personagens como os interpretados por Clint Eastwood em seus westerns ou por Robert De Niro em filmes de Martin Scorsese mostram uma masculinidade mais complexa e às vezes problemática.

    Nos últimos anos, houve uma mudança na forma como a virilidade é retratada na mídia. Atores como Timothée Chalamet , Adam Drives , Barry Keoghan, e Michael B. Jordan representam uma gama mais ampla de masculinidades, incluindo vulnerabilidade e sensibilidade, ao mesmo tempo em que mantêm traços tradicionalmente viris, astros que não tem medo de expressar vulnerabilidades com comportamentos não tradicionais de galãs, como pintar unhas, vestir sais, e fazer produções com temáticas LGBTIQIA+. No Brasil, jovens como Jõao Guilherme, Juliano Floss e Chat Suede, lideram produções que desafiam o conceito tradicional de masculinidade.

    Há uma crítica crescente em relação à forma como a virilidade é retratada na mídia, com argumentos de que ela pode perpetuar expectativas irreais e prejudiciais para os homens. Em resposta, há uma tendência crescente para representações mais diversas e realistas da masculinidade.

    Atores têm um papel importante na definição e redefinição da virilidade na cultura popular. Através de suas escolhas de papéis e performances, eles podem tanto reforçar quanto desafiar as normas tradicionais de gênero, influenciando assim a percepção pública da masculinidade. E  a televisão e o cinema tem desempenhado um papel fundamental, contribuindo para a redefinição dos padrões masculinos.

    Regina Papini Steiner